Arquivo do extinto blogue Esferovite- a vida em pedaços (13-08-2003/ 4-01-2006)

quarta-feira, maio 04, 2005

da verdade e da mentira em L.F.C.

da mentira, resta-me este ar perturbado de quem se passeia, perdido, pelos meandros das palavras dos outros, à procura de um sinal, de um respirar, carne viva ao passar dos dedos. da mentira, tenho todos os homens e todas as mulheres do mundo que me lêem e me amam e me adoram, e assustam os poucos homens e as poucas mulheres que me podiam tocar, a chegar sequer perto. da mentira, tenho os olhos bonitos e o sorriso caloroso.

da verdade, tenho as lágrimas na almofada. os dedos que, agora, prendo quando em ti penso. os movimentos desleixados e tristes da masturbação. o acordar sempre sem objectivos.

da mentira, tenho a alegria de estar vivo e de querer sempre mais. o peito inchado de uma camisa demasiado apertada que faz suspirar as mulheres de meia-idade que passam por mim na rua. o ar distante do jovem empresário. da mentira, tenho o sucesso todo que sempre desejei. a sorte de estar no sítio certo, na hora certa. o andar de carro por cidades que não conheço, só para fugir à minha.

da verdade, o peixe que descongela no lava-loiças. uma amiga que me espera sempre até se chatear com a minha ausência. um estudo que nunca ficará pronto. a casa cheia de pó e pensamentos inúteis.

da mentira, tenho uma certa coicidência discursiva que não é mais nada do que o não saber o que dizer. um ar de caçador que acaba sempre por ser caça. um ter a ilusão de que conheço, ou devia conhecer, todos aqueles que me lêem. o pensar que mais ninguém é como eu, que detesto conhecer aqueles que gosto de ler. o estar sempre em contacto com o mundo inteiro.

da verdade, não tenho nada que te possa mostrar em palavras. porque as palavras já as gastei com a mentira que fiz da minha vida. da verdade, tenho as minhas mãos lavadas e os meus olhos que te esperam. da verdade, só a triste impressão do nunca nunca te encontrar.

2 comentários:

Litostive disse...

São tão estranhas as tuas verdades. As tuas mentiras... =/

Vou contar-te uma verdade.
CTT.
Aurélio Ricardo Belo e tal.
Não.
Sim, claro que sim. Não sejas tonta.
Não.
Sim.
Não.
... não.
E entretanto mudou o destinatário.
O peito sussurrou... a caneta escreveu outro nome... O envelope era mole... A caneta era dura... A consciência doía tanto...
Amanhã envias outro, dizia.
Não tens outro, respondia.
Fazes outro mais bonito, dizia.
Odeio-te, respondia.
E vim para casa.
Ficou o odeio-te. E ficou outro destinatário.

Sou horrível e gosto de enviar encomendas para a terra-do-nunca. E para o 4º Dto.

Tua...

Fabi disse...

Da mentira: um amor. Da verdade: além-mar.

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