Arquivo do extinto blogue Esferovite- a vida em pedaços (13-08-2003/ 4-01-2006)

quarta-feira, junho 29, 2005

certas coisas que não fazem sentido

adormeci a contar pestanas caídas pela face. na mesa de cabeceira tenho canetas.

é assim que começam os poemas ou é assim que começam os poemas ou é assim que começam as coisas que nós temos para dizer a quem nos ouve. está bem, está bem, eu oiço qualquer coisa dentro da minha cabeça, deve ser uma voz que vem de longe, não é gente, não. no meio deste parágrafo posso dizer que adormeci a contar pestanas caídas pela face. na mesa de cabeceira.

canetas.

fazem barulhos porque eu passo sobre elas a minha mão. a minha mão livre. a minha mão, embrulhada num xaile. a partir de uma certa data, o xaile entrou nas minhas histórias, um xaile comprido, do tamanho suficiente para tapar um corpo todo. agora, imagino-o a embrulhar a minha mão. eu não sei bem de onde veio este xaile, desconfio que tenha saído de dentro de uma mala. uma mala de uma mulher bonita.

os poemas começam pelas canetas. as canetas e o papel branco, sem riscos.

sem riscos. os poemas, por tratar, estão assim arrumados. nem um apontamento, nem uma modificação. saem da cabeça límpidos e errados. eu coloco as minhas mãos à boca, a minha livre, nas canetas, a minha mão embrulhada no xaile, uma voz que eu oiço, não sei bem, dizia-te para teres juízo, julguei ouvir, uma tarde inteira sentado no café a ver passar à minha frente homens de gravata e estava sol. certas coisas que não fazem sentido começam assim. poesia.