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terça-feira, novembro 23, 2004

hospital de letras

que horas são, pergunto eu, de mim para mim mesmo. reservo-me um enorme silêncio, como resposta. ou melhor, como não resposta. aprendi ao longo dos anos que não se deve perguntar as horas a nós mesmos. é o tipo de aprendizagem que se pode fazer quando se passa demasiado tempo dentro da redoma que se construíu para si. uma coisa um tanto oca, diria. que horas são, e de repente, perceber mais uma vez que me tenho estado a dedicar a nada, se é que se pode dizer que se dedica a nada o tempo que dedicamos a tentar sair de uma teia que nos construímos.

melhor não perguntar as horas, melhor mesmo é dizer, porque estou preso, ou então, porque é de noite e eu aqui preso a uma miragem. ou talvez eu só esteja a complicar o que já é por natureza demasiado complicado, talvez eu esteja a tentar reescrever uma história que ainda nem foi pensada o suficiente para ser escrita numa forma original. tudo o que é vida, é repetição. uma das coisas que não podemos negar. nem mesmo quando pisamos o nunca antes pisado. porque estou preso, pergunto-me, e vejo à minha volta uma série de folhas, não brancas, cheias de gatafunhos que não consigo compreender. e não perceber porque as risquei assim.

estou em trânsito para um outro lado qualquer, toda a gente que quiser me poderá desviar, eu só não serei capaz de voltar atrás. telefonas-me quantas vezes por dia para dizer o mesmo, logo a mim que não sei atender o telefone, logo a mim que me atrapalho com as teclas quando me pedem para enviar mensagem. que horas são e bastava tirar o telemóvel do bolso para o saber. é assim que se resolvem as questões existenciais, penso. recorrer ao bolso certo, ao objecto certo. as folhas brancas ou riscadas, uma ordem inexplicável, guardada na prisão onde tenho os pés. e, querendo saber do resto do corpo, procurá-lo, de uma forma desordeira, ao telefone, num hospital.



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