pedi-te que não me abrisses a camisa. estou de pé à tua frente, baloiças o teu tronco contra o meu e eu fecho os olhos, sem pensar em nada. é boa esta sensação de não pensar, uma certa descoberta demasiado recente em mim. pedi-te que não me abrisses a camisa, talvez por medo, talvez por saber que o farias no momento certo.
baloiças o teu tronco contra o meu, o meu corpo obedece ao ritmo de uma música que nenhum de nós ouve. quando é que isto começou é uma pergunta à qual eu não sei responder. julgo que é daquelas coisas que aparecem nas paredes, sem que nós consigamos perceber se é dos canos ou da humidade do terreno. agora é assim, sinto-o.
pedi-te que não me abrisses a camisa. sempre tive medo de muita coisa, demasiadas coisas mesmo. sei, ou finjo saber, que tenho um percurso que os meus pés vão seguir, sempre à procura de novas ruas e novas avenidas onde pousar os olhos. sei que tu sabes qual é o momento certo. eu não sei de nada. não penso, sinto.
Arquivo do extinto blogue Esferovite- a vida em pedaços (13-08-2003/ 4-01-2006)
quinta-feira, dezembro 08, 2005
quarta-feira, dezembro 07, 2005
someone said my love was gone (texto para o filme)
ouvir uma canção que repete, monocordicamente, a palavra sozinho, sozinho, sozinho, rasgar a camisa por não querer abrir os botões, ter a cara pintada de preto e dizer a toda a gente que se é carvoeiro, deixar crescer a barba até ser digno de aparecer num álbum de fotografias, fazer exposições com objectos íntimos e pessoais. pensar que a pessoa que amamos morreu.
romper com todas as amizades possíveis e imagináveis antes que seja dia de reis, beber copos atrás de copos de álcool ainda por destilar, corromper as mentes limpas deste mundo, tentar santificar as conspurcadas, correr pelo jardim a gritar liberdade e acabar preso nas mãos de um grupo de sonhadores desfraldados. pensar que a pessoa que amamos morreu.
ter os dedos inábeis para te tocar, ter os dentes ausentes no momento da dentada, ter que fazer todas as coisas que, na face do mundo, já foram feitas, ter um dia por semana para se ser sorridente e adoecer, fingir que tudo tudo está errado, depois fingir que tudo tudo está certo, limpar as unhas, crescer um bocado, dizer olá. pensar que a pessoa que amamos morreu.
romper com todas as amizades possíveis e imagináveis antes que seja dia de reis, beber copos atrás de copos de álcool ainda por destilar, corromper as mentes limpas deste mundo, tentar santificar as conspurcadas, correr pelo jardim a gritar liberdade e acabar preso nas mãos de um grupo de sonhadores desfraldados. pensar que a pessoa que amamos morreu.
ter os dedos inábeis para te tocar, ter os dentes ausentes no momento da dentada, ter que fazer todas as coisas que, na face do mundo, já foram feitas, ter um dia por semana para se ser sorridente e adoecer, fingir que tudo tudo está errado, depois fingir que tudo tudo está certo, limpar as unhas, crescer um bocado, dizer olá. pensar que a pessoa que amamos morreu.
para me encantar
meu pequeno problema, flor de mar apagado, apago o candeeiro e o que sobra, estes dedos que tremem como a barriga, a minha dor sempre presente e tão escondida, agarro-me ao estômago, saio daqui.
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vou e venho e o atendedor de chamadas vazio, nem uma mensagem, uma declaração de amor, nada, nada, nada. podia tomar um duche a esta hora, mas a sujidade é muito mais eu que qualquer deriva aquática. o meu signo peixes, os meus olhos chorosos. vai um copo?
sim e sim, podia contar-te a história de uma maneira diferente mas tu só me perguntas pelo preço da vida e pelas horas de almoço. eu aconchego-me debaixo da manta e minto-te enquanto posso. depois de mim nada mais será igual na tua vida, tu sabes.
eu e as minhas dores escondidas, eclipsadas debaixo da linha do horizonte que eu não conto a ninguém. deixa-me o troco em cima da mesa e não me peças que vá ao médico dizer que me estou a desfazer por dentro. toda a gente sabe, é visível aos olhos. que horas são?
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vou e venho e o atendedor de chamadas vazio, nem uma mensagem, uma declaração de amor, nada, nada, nada. podia tomar um duche a esta hora, mas a sujidade é muito mais eu que qualquer deriva aquática. o meu signo peixes, os meus olhos chorosos. vai um copo?
sim e sim, podia contar-te a história de uma maneira diferente mas tu só me perguntas pelo preço da vida e pelas horas de almoço. eu aconchego-me debaixo da manta e minto-te enquanto posso. depois de mim nada mais será igual na tua vida, tu sabes.
eu e as minhas dores escondidas, eclipsadas debaixo da linha do horizonte que eu não conto a ninguém. deixa-me o troco em cima da mesa e não me peças que vá ao médico dizer que me estou a desfazer por dentro. toda a gente sabe, é visível aos olhos. que horas são?
terça-feira, dezembro 06, 2005
£
estão a deitar abaixo a minha casa, sim, estes estrondos que oiço cá dentro são isso mesmo, operários, munidos de ferramentas, martelos, brocas, ferramentas, a deitar abaixo a minha casa, sinto-o, estou deitado na cama e sinto, a parede que cai, o cano que rebenta, o chão a evaporar-se no meio do pó, isso tudo, isso mesmo, a casa, a casa abaixo.
a casa abaixo, pois, e o telefone que toca sem parar, números que desconheço a gritarem-me ao ouvido, uma pastora evangélica a falar-me de deus, jesus, ai jesus, e o que eu faço, deitado na cama, a casa a ir abaixo, as paredes, deus que me fez perfeito, perfeito o dia para saber disso, a casa a ir abaixo, o telefone desligado, sem fios.
estão a deitar abaixo a minha casa, certo, e as dores que me chegam às costas, as dores que trago na cabeça, umas quantas coisas por dizer, uma parede que cai quase em cima de mim, operários ferramentas brocas, o barulho igual em todas as divisões da casa, ex-divisões comigo dentro, comigo fora, uns passos do lado de fora, onde eu estava, era aí.
a casa abaixo, pois, e o telefone que toca sem parar, números que desconheço a gritarem-me ao ouvido, uma pastora evangélica a falar-me de deus, jesus, ai jesus, e o que eu faço, deitado na cama, a casa a ir abaixo, as paredes, deus que me fez perfeito, perfeito o dia para saber disso, a casa a ir abaixo, o telefone desligado, sem fios.
estão a deitar abaixo a minha casa, certo, e as dores que me chegam às costas, as dores que trago na cabeça, umas quantas coisas por dizer, uma parede que cai quase em cima de mim, operários ferramentas brocas, o barulho igual em todas as divisões da casa, ex-divisões comigo dentro, comigo fora, uns passos do lado de fora, onde eu estava, era aí.
0
a quantas horas daqui fica a nossa ideia de completude, era essa uma das coisas que eu gostaria de ser capaz de responder com os meus olhos. é o que podemos fazer com os olhos que me fascina, perguntas e respostas, teses inteiras só com os olhos castanhos verdes azuis que nos deram. agora, olha para mim.
falta-me jeito para dar ordens, aliás, falta-me jeito para dar seja o que for.
falta-me jeito para dar ordens, aliás, falta-me jeito para dar seja o que for.
domingo, dezembro 04, 2005
deixa ser
talvez nunca tenhas pensado nisso, mas as amizades podem desaparecer assim, como um rio que seca pelo vale adentro, sabe-se lá onde faltou pela primeira vez água no leito, foram tantas as barcaças que, pelo meio de tombos e enjoos conseguiram ir até ao mar, que chegas a pensar se alguma vez a água faltou mesmo, talvez nunca tenhas pensado nisso, uma amizade pode parecer perfeita até ao preciso momento em que deixa de existir.
é porque é mesmo assim, um dia acordas e o rio secou. onde chegou a haver uma forte corrente agora sobram algumas poças e peixes mortos pelo chão que vai secar também, sabes agora melhor que ninguém que é só uma questão de tempo, não adiantam promessas ou detalhes que vão sendo ressuscitados por frases mais ou menos deslocadas, não adianta a repetição dos gestos, o passar pelos lugares reconhecíveis, um dia acordas, o rio secou, ponto final.
porque talvez não adiante sequer vestir um fato de gala para o funeral, paz à sua alma que se acabou, mais do que essa mera formalidade vai parecer matiné de reformados, domingo à tarde e uns quantos caquéticos a balançar os ossos ao som de músicas que ninguém ouve sem ser obrigado, os meus ossos estão bem obrigado, com falta de cálcio como de costume, um dia acordas e secou, foi embora, acabou. talvez nunca tenhas pensado nisso, mas as amizades podem desaparecer assim.
é porque é mesmo assim, um dia acordas e o rio secou. onde chegou a haver uma forte corrente agora sobram algumas poças e peixes mortos pelo chão que vai secar também, sabes agora melhor que ninguém que é só uma questão de tempo, não adiantam promessas ou detalhes que vão sendo ressuscitados por frases mais ou menos deslocadas, não adianta a repetição dos gestos, o passar pelos lugares reconhecíveis, um dia acordas, o rio secou, ponto final.
porque talvez não adiante sequer vestir um fato de gala para o funeral, paz à sua alma que se acabou, mais do que essa mera formalidade vai parecer matiné de reformados, domingo à tarde e uns quantos caquéticos a balançar os ossos ao som de músicas que ninguém ouve sem ser obrigado, os meus ossos estão bem obrigado, com falta de cálcio como de costume, um dia acordas e secou, foi embora, acabou. talvez nunca tenhas pensado nisso, mas as amizades podem desaparecer assim.
sexta-feira, dezembro 02, 2005
try walking in my shoes
castanho não é uma cor, é uma palavra. quando digo castanho, não te digo o cheiro nem o brilho dos teus olhos. digo fronteira, digo distância, falo de lugares onde não podes tocar com as tuas mãos. castanho não é uma cor, não são caracóis macios a desfazerem-se pelos dedos. castanho é uma palavra, uma palavra que tanto pode servir aos teus cabelos como ao tom da terra molhada que se avista pelo campo.
calço umas botas e não ando. com estas botas tornou-se impossível ir a algum lado. calço as botas, visto um casaco bem quente e sento-me de novo na sala. a sala tem as paredes cheias de fotografias antigas e armas que já foram de caça. calço umas botas. quando era pequeno calçava as botas do meu avô e andava pela sala a fingir que era grande. agora que sou grande sento-me, um pouco vergado, dirias, pelo peso desta sala. lá fora, castanho.
talvez alguém me espere, ou espere de mim uma ordem, um avanço. é inverno e o campo para lavrar. o meu avô entrava pela cozinha com as botas cheias de lama e as empregadas corriam a ajudá-lo. havia nelas um misto de reverência pelo senhor e um pânico da sujidade passar para lá da cozinha. dias inteiros a limpar e a lavar a casa toda e umas botas que podiam estragar tudo. levavam-lhe uns sapatos limpos e um pano para limpar a cara. ele mal sorria.
eu ficava num dos quartos de dentro a olhar pela janela. estava frio e chovia, ninguém me deixava brincar à chuva. quando ouvia o meu avô pelo corredor ia espreitá-lo. vinha imponente, completamente sujo de lama e com uns sapatos que quase brilhavam. nunca percebia bem aquela incongruência. sim, eu sabia do processo, de como tudo se passava. mas era sempre com espanto que o olhava, atrás da porta, a passar no corredor.
castanho. não é bem uma cor, agora que penso melhor nisso. castanho é um rasto de lama no chão da cozinha, é o campo todo até onde se poderia ver num dia de chuva. castanho é o meu inverno, todos os invernos. estou sentado na sala, botas calçadas, casaco quente vestido. há qualquer coisa nos teus cabelos que me faz ficar aqui. mas talvez seja a minha vida inteira. castanho é só uma palavra. tento não me esquecer disso.
calço umas botas e não ando. com estas botas tornou-se impossível ir a algum lado. calço as botas, visto um casaco bem quente e sento-me de novo na sala. a sala tem as paredes cheias de fotografias antigas e armas que já foram de caça. calço umas botas. quando era pequeno calçava as botas do meu avô e andava pela sala a fingir que era grande. agora que sou grande sento-me, um pouco vergado, dirias, pelo peso desta sala. lá fora, castanho.
talvez alguém me espere, ou espere de mim uma ordem, um avanço. é inverno e o campo para lavrar. o meu avô entrava pela cozinha com as botas cheias de lama e as empregadas corriam a ajudá-lo. havia nelas um misto de reverência pelo senhor e um pânico da sujidade passar para lá da cozinha. dias inteiros a limpar e a lavar a casa toda e umas botas que podiam estragar tudo. levavam-lhe uns sapatos limpos e um pano para limpar a cara. ele mal sorria.
eu ficava num dos quartos de dentro a olhar pela janela. estava frio e chovia, ninguém me deixava brincar à chuva. quando ouvia o meu avô pelo corredor ia espreitá-lo. vinha imponente, completamente sujo de lama e com uns sapatos que quase brilhavam. nunca percebia bem aquela incongruência. sim, eu sabia do processo, de como tudo se passava. mas era sempre com espanto que o olhava, atrás da porta, a passar no corredor.
castanho. não é bem uma cor, agora que penso melhor nisso. castanho é um rasto de lama no chão da cozinha, é o campo todo até onde se poderia ver num dia de chuva. castanho é o meu inverno, todos os invernos. estou sentado na sala, botas calçadas, casaco quente vestido. há qualquer coisa nos teus cabelos que me faz ficar aqui. mas talvez seja a minha vida inteira. castanho é só uma palavra. tento não me esquecer disso.
balancé
aguarda sereno o mau tempo passar, depois estende a tua mão para fora da janela, diz, baixinho, uns quantos nomes, umas quantas regras, do pesar dos dias em ti fechados. aguarda, sereno, o mau tempo passar. Depois, estende a tua mão para fora da janela e diz, muito baixinho, uns quantos nomes, umas quantas regras, fala-me de como pesam os dias em ti fechados. aguardo sereno o mau tempo passar e estendo a mão para fora da janela enquanto digo, baixo, os nomes e as regras do pesar dos dias em mim fechados. aguardo, sereno, que o mau tempo passe. estendo, entretanto, a minha mão para fora da janela. digo, baixinho, uns quantos nomes, umas quantas regras, de como pesam os dias, aqui, em mim fechado.
quinta-feira, dezembro 01, 2005
k.
ele abraçava-me enquanto subíamos a rua. estava muito escuro, talvez fosse uma quebra de electricidade ou talvez a câmara municipal estivesse decidida a fazer daquele bairro um lugar pouco apropriado para vivências sociais. ele abraçava-me, tentava passar a língua pela minha barba mal feita. eu meti a mão ao bolso e tirei a chave de casa.
ele abraçava-me. o elevador estava avariado e tentávamos seguir assim, pegados um no outro, pela fileira de escadas demasiado estreita. foi uma história demasiado comprida para se poder contar de uma forma simples. não sei bem por onde é que andei naquela noite, sei que o reencontrei depois de alguns meses sem ter notícias. o que posso dizer é que começou tudo de novo.
ele abraçava-me já à porta e eu encostava-me cada vez mais à parede. qualquer coisa me dizia que o tinha que deixar por ali. gostava dele, sentia o desejo crescente no seu abraço, o meu corpo reagia, integrando-o. mas quando as luzes do prédio se apagaram, entrando numa estranha consonância com as da rua, senti que chegara o tempo de ficar sozinho. ele abraçava-me e eu disse-lhe adeus.
ele abraçava-me. o elevador estava avariado e tentávamos seguir assim, pegados um no outro, pela fileira de escadas demasiado estreita. foi uma história demasiado comprida para se poder contar de uma forma simples. não sei bem por onde é que andei naquela noite, sei que o reencontrei depois de alguns meses sem ter notícias. o que posso dizer é que começou tudo de novo.
ele abraçava-me já à porta e eu encostava-me cada vez mais à parede. qualquer coisa me dizia que o tinha que deixar por ali. gostava dele, sentia o desejo crescente no seu abraço, o meu corpo reagia, integrando-o. mas quando as luzes do prédio se apagaram, entrando numa estranha consonância com as da rua, senti que chegara o tempo de ficar sozinho. ele abraçava-me e eu disse-lhe adeus.
quarta-feira, novembro 30, 2005
revisão
o meu pé pesado ou esta maneira de dizer algumas palavras em português do outro lado. tentar fazer do meu poema um texto em prosa, um texto em mente, testamento. recorrer, para nunca mais, à rima, encostar o corpo à parede e, por uma última vez, dizer que nada há mais para rever.
o meu olho que chora ou o nariz entupido, inrompido pela caneta que escreve num papel absurdo. quero, mesmo assim, voltar a pôr a cabeça de fora do carro para sentir o vento nos óculos. alguém buzina no meu ouvido e eu sorrio. que horas eram quando tu disseste que tinhas chegado atrasado?
amanhã, andar para cá e para lá, mas a minha deixa era outra, completamente diferente. deixei o telemóvel a carregar sonhos pela noite dentro e fui-me embora vestir camisas de cores diferentes. se encontrares o meu casaco diz-lhe que eu volto. se me encontrares a mim, acompanha-me a casa.
o meu olho que chora ou o nariz entupido, inrompido pela caneta que escreve num papel absurdo. quero, mesmo assim, voltar a pôr a cabeça de fora do carro para sentir o vento nos óculos. alguém buzina no meu ouvido e eu sorrio. que horas eram quando tu disseste que tinhas chegado atrasado?
amanhã, andar para cá e para lá, mas a minha deixa era outra, completamente diferente. deixei o telemóvel a carregar sonhos pela noite dentro e fui-me embora vestir camisas de cores diferentes. se encontrares o meu casaco diz-lhe que eu volto. se me encontrares a mim, acompanha-me a casa.
terça-feira, novembro 29, 2005
3
a primeira palavra que me veio à cabeça foi pijama. pijama, como as manias de pequenas festas na imaginação das criancinhas. corria atrás da bola, uma duas vezes três, tentava segurar com as duas mãos pequenas a testa fria da avó e constipava-se ao terceiro dia. era assim que me chegava a palavra pijama.
a segunda palavra não era uma palavra, era uma tela enorme numa sala escura. fomos ao cinema quando tínhamos seis anos, nem sabíamos ler as legendas. havia muita rapaziada à volta, a falar baixinho, a dar beijos nos escuros. nós não sabíamos ler, por isso é que a segunda palavra não era uma palavra. era uma luz acesa.
a terceira palavra era um parágrafo. um parágrafo cheio de palavras diferentes. era uma professora da escola primária a tentar pagar-me um café enquanto me gabava os versos que ainda não tinha lido. era um parágrafo rasurado num caderno, uma ideia para um romance que ainda não escrevi. e ficou-se por ali, parágrafo.
a segunda palavra não era uma palavra, era uma tela enorme numa sala escura. fomos ao cinema quando tínhamos seis anos, nem sabíamos ler as legendas. havia muita rapaziada à volta, a falar baixinho, a dar beijos nos escuros. nós não sabíamos ler, por isso é que a segunda palavra não era uma palavra. era uma luz acesa.
a terceira palavra era um parágrafo. um parágrafo cheio de palavras diferentes. era uma professora da escola primária a tentar pagar-me um café enquanto me gabava os versos que ainda não tinha lido. era um parágrafo rasurado num caderno, uma ideia para um romance que ainda não escrevi. e ficou-se por ali, parágrafo.
segunda-feira, novembro 28, 2005
domingo, novembro 27, 2005
rasganço
a cama aberta uma vez mais, descoberto o corpo quente da noite, cai uma carga de água e gelo sobre o telhado e eu cá dentro, da casa e de mim, um lenço sobre os olhos chorosos, a mão na testa que quase ferve. a cama aberta, eu, e estar sozinho neste dia assim, um lenço que se molha a cada minuto, depois largado pelo chão.
a cama aberta, a boca desligada, deixei a cabeça algures num dia onde eu não estou. não vale a pena o que possas dizer, não há proximidade que chegue ao meu abraço. puxo então a manta para os meus ombros e oiço no rádio, baixinho, a professora Berardinelli a falar vivaz de literatura. lembro-me de ela me falar de um poema. os olhos vermelhos.
a cama aberta, a boca sem nada para dizer. o frio todo lá fora e todo cá dentro. num espaço intermédio pouco ou nada resta para dizer. páro: a palavra dizer repetida. duas vezes. volto acima, talvez alguma vez mais. sim, ali. três. a cama aberta e eu, as mãos debaixo da manta. oiço. lembro-me de ela me falar de um poema, de como o lia. mas agora, pouco interessa.
a cama aberta, a boca desligada, deixei a cabeça algures num dia onde eu não estou. não vale a pena o que possas dizer, não há proximidade que chegue ao meu abraço. puxo então a manta para os meus ombros e oiço no rádio, baixinho, a professora Berardinelli a falar vivaz de literatura. lembro-me de ela me falar de um poema. os olhos vermelhos.
a cama aberta, a boca sem nada para dizer. o frio todo lá fora e todo cá dentro. num espaço intermédio pouco ou nada resta para dizer. páro: a palavra dizer repetida. duas vezes. volto acima, talvez alguma vez mais. sim, ali. três. a cama aberta e eu, as mãos debaixo da manta. oiço. lembro-me de ela me falar de um poema, de como o lia. mas agora, pouco interessa.
espelho meu
tenho o telemóvel cheio de números, cheio de casas e de dúvidas, cheio de palavras sem respostas e sem portas. tenho o telemóvel em cima da mesa, os teus olhos contra os meus, mesmo se chove, um abraço apertado porque alguém está perto, um endereço por apontar. tenho o telemóvel guardado, silenciado, apagado. tenho tudo e mais alguma coisa, em profunda contradição sempre.
há qualquer coisa que me falta dizer. falta-me dizer a mim mesmo. é só isso. tudo o resto não passa de um profundo desperdício.
há qualquer coisa que me falta dizer. falta-me dizer a mim mesmo. é só isso. tudo o resto não passa de um profundo desperdício.
quinta-feira, novembro 24, 2005
escritor
são onze horas da manhã e o escritor está na varanda, a estender a roupa. o sol bate-lhe directamente na cabeça, o que, misturado com o frio que faz neste início de inverno, provoca um espirro. estende as camisas, calças, cuecas, meias, sem nenhuma organização aparente. o que importa é que ao fim de uns dez minutos, a roupa fica estendida. o escritor volta para dentro e espirra uma última vez.
são onze horas e dez minutos da manhã e o escritor liga o rádio, senta-se ao sofá a ouvir as notícias. tenta pensar em coisas úteis, em palavras, em pequenas histórias e como as construir. no entanto, o escritor pensa no almoço. percorre mentalmente as prateleiras da dispensa, os conteúdos do frigorífico. sentado no sofá, a ouvir música, o escritor estende as pernas e tenta relaxar. e não se decide entre ovos mexidos e uma sandes de fiambre.
são onze horas e já não sei quantos minutos da manhã e o escritor abre e fecha os olhos com violência. tenta pensar no que está ali a fazer mas parece não chegar a nenhuma conclusão. o escritor lembra-se de um tempo em que era um rapazinho organizado, meticuloso. hoje já dá por si a andar pelas ruas que o levam ao seu destino da forma mais longínqua. em que pensava, nos ovos ou num poema? histórias pequenas com sandes de fiambre. o escritor levanta-se.
são onze horas e dez minutos da manhã e o escritor liga o rádio, senta-se ao sofá a ouvir as notícias. tenta pensar em coisas úteis, em palavras, em pequenas histórias e como as construir. no entanto, o escritor pensa no almoço. percorre mentalmente as prateleiras da dispensa, os conteúdos do frigorífico. sentado no sofá, a ouvir música, o escritor estende as pernas e tenta relaxar. e não se decide entre ovos mexidos e uma sandes de fiambre.
são onze horas e já não sei quantos minutos da manhã e o escritor abre e fecha os olhos com violência. tenta pensar no que está ali a fazer mas parece não chegar a nenhuma conclusão. o escritor lembra-se de um tempo em que era um rapazinho organizado, meticuloso. hoje já dá por si a andar pelas ruas que o levam ao seu destino da forma mais longínqua. em que pensava, nos ovos ou num poema? histórias pequenas com sandes de fiambre. o escritor levanta-se.
quarta-feira, novembro 23, 2005
little boys
a roubar outra vez:
"Life is tough and love is rough
For the man who just can't ever seem to get enough
The days go by and the women come and go
So many that you decide to get rid of your front door
So you don't have to hear them all disappear
You just sit and you wait
Staring at your empty plate
And you can say I'm a lonely sailor
Rockin' gently on my dreams
'Cause I have it all, but I don't want it all
It ain't like I've never ever ever ever tried
I just never been fully satisfied "
de Devendra Banhardt
is he talkin' to me?
"Life is tough and love is rough
For the man who just can't ever seem to get enough
The days go by and the women come and go
So many that you decide to get rid of your front door
So you don't have to hear them all disappear
You just sit and you wait
Staring at your empty plate
And you can say I'm a lonely sailor
Rockin' gently on my dreams
'Cause I have it all, but I don't want it all
It ain't like I've never ever ever ever tried
I just never been fully satisfied "
de Devendra Banhardt
is he talkin' to me?
final da tarde
ah deixa-me ficar por aqui, os olhos chorosos, a ver o campeonato deste lado de fora. eu agarro as mãos uma na outra e finjo-me valente - é uma das maneiras de se viver, digo-te eu, que não sei nada do funcionamento das coisas.
deixa, deixa, leva as bandeiras para a varanda, chama chama por um joão ratão, eu fico no andar debaixo, a ver o jogo decorrer à distância - alimento assim o meu bicho do mato, o meu bicho roedor, cá dentro.
ah deixa-me ficar, sim, deixa-me ficar, pois é sempre essa a minha vontade, a quietude inteira dos dias vazios, as palavras caladas por um silêncio de maratona - a ideia, a simples ideia desta solidão, a escorrer-me pela face, em lágrimas.
deixa, deixa, leva as bandeiras para a varanda, chama chama por um joão ratão, eu fico no andar debaixo, a ver o jogo decorrer à distância - alimento assim o meu bicho do mato, o meu bicho roedor, cá dentro.
ah deixa-me ficar, sim, deixa-me ficar, pois é sempre essa a minha vontade, a quietude inteira dos dias vazios, as palavras caladas por um silêncio de maratona - a ideia, a simples ideia desta solidão, a escorrer-me pela face, em lágrimas.
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