Estava aqui há dois anos e seis meses, acho que algures entre crescimento e amadurecimento, consegui ir sintetizando algumas das dúvidas que fazem parte do meu trabalho artístico escrito. Íntimamente ligado a este, o meu projecto pessoal, alterando-se com o normal passar dos dias.
Estava aqui há dois anos e seis meses e, se existem alturas melhores que outras para mudar, o início de um novo ano será certamente uma delas. Tenho que agradecer a todos aqueles que por aqui foram passando o importante contributo que me deram, lendo, comentando e apoiando aquilo que eu aqui fiz. Agora, o meu último pedaço de esferovite tem uma palavra gravada. Adeus.
Arquivo do extinto blogue Esferovite- a vida em pedaços (13-08-2003/ 4-01-2006)
quarta-feira, janeiro 04, 2006
segunda-feira, janeiro 02, 2006
comida
esta manhã, ao olhar a vitrina do café cheia de comida, apeteceu-me chorar. era eu em silêncio, uma chávena de café nas mãos, quente. a empregada a soprar cansaços ou outros pensamentos sobre o balcão. e a dona do café a chegar com mais bolos, acabados de confeccionar, a arrumá-los nas bandejas. esta manhã, eu olhava a comida e apetecia-me chorar. não é a minha fome, não - eu não sei bem o que é, esta consciência social de ligação directa aos vasos de lágrimas.
a verdade é que existem algumas coisas que me dão vontade de chorar. crianças felizes a brincar em pátios. mulheres tristes sentadas em soleiras de portas. homens perdidos nas suas próprias ficções de masculinidade. comida exposta em vitrinas de cafés. o café estava vazio, havia um sîlêncio um tanto desolador entre as mesas. as poucas pessoas que estavam tinham-se sentado, geometricamente, em cantos. a televisão estava desligada. houvia-se demasiado bem os sopros da empregada. a minha mão a segurar a colher que mexia o café.
não fiquei muito tempo naquele café, mas a primeira frase desta história começou a crescer em mim quando ainda bebia o meu café. a comida que me fez chorar eram folhados de salsicha, de chouriço, croissants, empadas, queques, bolos. era comida para o almoço de gente pobre que hoje talvez não tenha vindo trabalhar. era comida para miúdos da escola que hoje não abriu. era comida que fez apetecer chorar. naquele café nem sequer havia um jornal para esconder as lágrimas. era eu, a empregada, as mulheres sentadas aos cantos e um relógio de parede. tudo isto e uma vitrina cheia de comida.
a verdade é que existem algumas coisas que me dão vontade de chorar. crianças felizes a brincar em pátios. mulheres tristes sentadas em soleiras de portas. homens perdidos nas suas próprias ficções de masculinidade. comida exposta em vitrinas de cafés. o café estava vazio, havia um sîlêncio um tanto desolador entre as mesas. as poucas pessoas que estavam tinham-se sentado, geometricamente, em cantos. a televisão estava desligada. houvia-se demasiado bem os sopros da empregada. a minha mão a segurar a colher que mexia o café.
não fiquei muito tempo naquele café, mas a primeira frase desta história começou a crescer em mim quando ainda bebia o meu café. a comida que me fez chorar eram folhados de salsicha, de chouriço, croissants, empadas, queques, bolos. era comida para o almoço de gente pobre que hoje talvez não tenha vindo trabalhar. era comida para miúdos da escola que hoje não abriu. era comida que fez apetecer chorar. naquele café nem sequer havia um jornal para esconder as lágrimas. era eu, a empregada, as mulheres sentadas aos cantos e um relógio de parede. tudo isto e uma vitrina cheia de comida.
sábado, dezembro 31, 2005
mpb
miss pérola negra e as suas pernas geniais, fazendo-me suar na bancada de um bar abandonado à beira da estrada, tudo muito escuro na iluminação, uma cegueira completa de copos de whisky e narcisos abandonados aos beijos alcoolizados dos pais-chefes-de-família. isto tudo para dizer que o carro parou aqui sem que eu quisesse, conscientemente, encontrá-la.
eu já a conhecia de alguma estação de serviço da minha juventude, mas agora ela era todo esplendor e eu era todo suor empoeirado de auto-estrada. miss pérola negra, que melhor nome poderia encontrar, e eu sem bilhete de identidade, sem lugar no salão, sem estacionamento pago. demasiadas coisas para esperar que a história ainda acabasse por dar certo.
acordar num motel dois quilómetros à frente, seguindo pela estrada que dava acesso ao concelho vizinho, não estava no meu mapa mental. a minha memória apagou-se ao quinto whisky mas ainda foi eu que acendi o cigarro dependurado dos lábios de miss pérola negra quando ela desceu do palco. isto tudo para dizer qualquer coisa de que já me esqueci.
eu já a conhecia de alguma estação de serviço da minha juventude, mas agora ela era todo esplendor e eu era todo suor empoeirado de auto-estrada. miss pérola negra, que melhor nome poderia encontrar, e eu sem bilhete de identidade, sem lugar no salão, sem estacionamento pago. demasiadas coisas para esperar que a história ainda acabasse por dar certo.
acordar num motel dois quilómetros à frente, seguindo pela estrada que dava acesso ao concelho vizinho, não estava no meu mapa mental. a minha memória apagou-se ao quinto whisky mas ainda foi eu que acendi o cigarro dependurado dos lábios de miss pérola negra quando ela desceu do palco. isto tudo para dizer qualquer coisa de que já me esqueci.
arenes
eu aqui ressuscitando do meio do sono onde as palavras me emocionam e travam de todos os lados. penso, instintivamente, numa casa baixinha à beira da estrada e da possibilidade de vários carros iguais se estacionarem à sua porta. o meu caminho é depois de uma outra estrada de gravilha e ferro, depois das fábricas e da chuva. o meu caminho é chegar ali, onde depois do sono e da ressuscitação, eu volto a ser um de mãos inteiras.
eu aqui e as palavras, uma maneira menos hábil de dizer ou fazer seja o que for, um outro corpo que se mexe dentro do meu, eu disso sempre soube, mas provando aquela deliciosa surpresa de qualquer coisa que nos mexe pelos olhos, um livro inteiro acabado de ler já a noite vai longa e a música, em fundo, a soar tão bem aos meus ouvidos ainda assim fechados. os olhos concentrados na mancha das frases, e de repente só sobra a mancha da mancha.
eu aqui e a minha imagem de rapaz com gravata à espera de uma tarde de verão, apesar de aqui chover, as estradas estarem molhadas e eu não ter botas novas para estrear no nosso casamento. imagino ainda uma camisa apertada, o meu bigode debaixo do nariz, uma postura meio torta de anjo que se descobre sem função na arquitectura do mundo. agrupo pedras nos bolsos e junto à minha porta, eram palavras, era o sono, qualquer coisa de ressuscitação.
eu aqui e as palavras, uma maneira menos hábil de dizer ou fazer seja o que for, um outro corpo que se mexe dentro do meu, eu disso sempre soube, mas provando aquela deliciosa surpresa de qualquer coisa que nos mexe pelos olhos, um livro inteiro acabado de ler já a noite vai longa e a música, em fundo, a soar tão bem aos meus ouvidos ainda assim fechados. os olhos concentrados na mancha das frases, e de repente só sobra a mancha da mancha.
eu aqui e a minha imagem de rapaz com gravata à espera de uma tarde de verão, apesar de aqui chover, as estradas estarem molhadas e eu não ter botas novas para estrear no nosso casamento. imagino ainda uma camisa apertada, o meu bigode debaixo do nariz, uma postura meio torta de anjo que se descobre sem função na arquitectura do mundo. agrupo pedras nos bolsos e junto à minha porta, eram palavras, era o sono, qualquer coisa de ressuscitação.
sexta-feira, dezembro 30, 2005
repetição
ficava à porta da loja a ouvir as conversas das pessoas que passam e tinha em cima do balcão dois copos sempre vazios. espantava as moscas e os fantasmas com a mesma facilidade, a minha mão fugia para felicidade, mas ninguém é feliz a espantar moscas, quanto a fantasmas já não digo o mesmo, a coisa é mais difícil e deve ser bom chegar a casa e pensar, hoje espantei mais três fantasmas, estou feliz.
ficava à porta da loja ou ficava ao fundo da loja. não dava bem para perceber, a loja tinha duas portas, uma para cada rua, ambas as ruas igualmente movimentadas e antigas, a calçada desfeita, carros estacionados em cima dos passeios, lojas com donas velhas não para fechar, para morrer. há qualquer coisa que não se entende bem nestas ruas da cidade. há qualquer coisa que me faz fugir a mão da facilidade para a felicidade.
ficava à porta da loja, ora de um lado ora do outro, isso só deu para perceber depois de um certo tempo a passar por ali. as moscas e os fantasmas continuavam os mesmos, pois, afinal não eram eficientes aqueles copos vazios que com o tempo iam ficando cheios de pó. ficava à porta da loja, de um ou outro lado, cumpria os dias um atrás do outro, naquela felicidade fácil de se estar contente só porque se está ali.
ficava à porta da loja ou ficava ao fundo da loja. não dava bem para perceber, a loja tinha duas portas, uma para cada rua, ambas as ruas igualmente movimentadas e antigas, a calçada desfeita, carros estacionados em cima dos passeios, lojas com donas velhas não para fechar, para morrer. há qualquer coisa que não se entende bem nestas ruas da cidade. há qualquer coisa que me faz fugir a mão da facilidade para a felicidade.
ficava à porta da loja, ora de um lado ora do outro, isso só deu para perceber depois de um certo tempo a passar por ali. as moscas e os fantasmas continuavam os mesmos, pois, afinal não eram eficientes aqueles copos vazios que com o tempo iam ficando cheios de pó. ficava à porta da loja, de um ou outro lado, cumpria os dias um atrás do outro, naquela felicidade fácil de se estar contente só porque se está ali.
baile
com estas três cadeiras eu faria um baile, eu que sou o duplo e a minha solidão. pediria ao tempo um intervalo e abriria, em sonho ou em chuva, as mãos para uma música nova e desencadeadora. eu e eu e a minha solidão, ou o meu chapéu com três bicos, tem três bicos o meus chapéu, se não tivesse três bicos, o que seria da solidão? um caderno já desfeito pelo tempo, temo-o bem.
contranbandeava assim o assassínio das minhas letras, rádio ligado na sala, a casa vazia, os talheres sobre as cadeiras, era isso, o meu enfim sós com tanta gente ainda por morrer. podia, mesmo assim, traulitar quatro acordes retirados de um cancioneiro asturiano ou percorrer a pé todos os andares do prédio. é tradicional, é tradicional, como um jingle publicitário em random durante a noite de ano novo.
mas a arrogância e a militância e toda a nossa ânsia, o fim do nosso mundo assim que chegasse a meia-noite, o telefone que toca mesmo sem rede, a minha companhia é azul, a tua vermelha, todas as coisas feitas a pensar nos daltónicos. um baile, enfim, um baile, troquei-te por ela, fiquei com a casa, não vou contigo ao cinema, uma mulher saída da corporação dos bombeiros, era tão bonito o amor em dias de fogo no pinhal.
imagino até já um certo silêncio pelas dobras das páginas, um engolir em seco das manobras dos nossos sapatos engraxados, o solitário desdém dos pais quando não percebem que a tecnologia tem avanços que o próprio evoluir das coisas não reconhece. eras tu e a minha casa, o baile e um nome que ainda não sei escrever, eu e eu e a minha solidão, tudo em duplicado, copo vazio caído, tudo em duplicado, ainda tanta gente.
contranbandeava assim o assassínio das minhas letras, rádio ligado na sala, a casa vazia, os talheres sobre as cadeiras, era isso, o meu enfim sós com tanta gente ainda por morrer. podia, mesmo assim, traulitar quatro acordes retirados de um cancioneiro asturiano ou percorrer a pé todos os andares do prédio. é tradicional, é tradicional, como um jingle publicitário em random durante a noite de ano novo.
mas a arrogância e a militância e toda a nossa ânsia, o fim do nosso mundo assim que chegasse a meia-noite, o telefone que toca mesmo sem rede, a minha companhia é azul, a tua vermelha, todas as coisas feitas a pensar nos daltónicos. um baile, enfim, um baile, troquei-te por ela, fiquei com a casa, não vou contigo ao cinema, uma mulher saída da corporação dos bombeiros, era tão bonito o amor em dias de fogo no pinhal.
imagino até já um certo silêncio pelas dobras das páginas, um engolir em seco das manobras dos nossos sapatos engraxados, o solitário desdém dos pais quando não percebem que a tecnologia tem avanços que o próprio evoluir das coisas não reconhece. eras tu e a minha casa, o baile e um nome que ainda não sei escrever, eu e eu e a minha solidão, tudo em duplicado, copo vazio caído, tudo em duplicado, ainda tanta gente.
quinta-feira, dezembro 29, 2005
algumas observações acerca de manifestos e pronomes pessoais
o que vão ler a seguir são pequenos reflexos de várias coisas:
- algumas leituras momentâneas que se misturam.
- algumas músicas que estão em random no meu real player.
- algumas conversas furtivas em chats.
- alguns pensamentos morais sobre o amor e coisas associadas.
- alguns sentimentos dignos de serem acarinhados pelos alvos deles próprios.
- alguns enganos de alma.
- alguns erros de sintaxe e semântica.
- a mais completa infidelidade a uma arte da composição que não dependa de um consistente pensamento sobre tudo o que a compõe e o mais aberrante desprendimento no momento da sua execução.
Assim seja.
- algumas leituras momentâneas que se misturam.
- algumas músicas que estão em random no meu real player.
- algumas conversas furtivas em chats.
- alguns pensamentos morais sobre o amor e coisas associadas.
- alguns sentimentos dignos de serem acarinhados pelos alvos deles próprios.
- alguns enganos de alma.
- alguns erros de sintaxe e semântica.
- a mais completa infidelidade a uma arte da composição que não dependa de um consistente pensamento sobre tudo o que a compõe e o mais aberrante desprendimento no momento da sua execução.
Assim seja.
manifesto-te
i'm heading west, my dear, e por enquanto todo o frio que sinto nos pés é desta paisagem onde acaba a resolução das nossas cedências. tu estás aí, chorosa e fria, entre as pernas a tua excitação promete congelar-se na vaga esperança de um cavaleiro que nunca chegará a tempo. eu dispo a minha roupa e vou-me embora. saio nu e inteiro desta reacção.
não tenho medo de te dizer que te amo, i love you, te quiero. não tenho medo de ouvir músicas do josé cid, nem de parecer ridículo quando entro em ti. não tenho medo de te morder os seios nem de te apalpar o corpo como se estivesse desejoso de uma última ceia. eu sou eu e tu és tu. tu aqui tão perto e tão longe, eu a fumar um cigarro num táxi que nunca chegará a casa.
go west, vai aonde te manda o coração, qualquer coisa assim ficaria bem num postal de despedidas. mas nunca se vai a tempo de uma despedida sem nem os encontros foram feitos a horas. agora mandas em mim quanto quiseres: o que sobrou foram algumas peças de roupa esquecidas na cadeira do teu quarto. meu amor, esta fotografia é o que os meus olhos não conseguem fixar na viagem.
não tenho medo de te dizer que te amo, i love you, te quiero. não tenho medo de ouvir músicas do josé cid, nem de parecer ridículo quando entro em ti. não tenho medo de te morder os seios nem de te apalpar o corpo como se estivesse desejoso de uma última ceia. eu sou eu e tu és tu. tu aqui tão perto e tão longe, eu a fumar um cigarro num táxi que nunca chegará a casa.
go west, vai aonde te manda o coração, qualquer coisa assim ficaria bem num postal de despedidas. mas nunca se vai a tempo de uma despedida sem nem os encontros foram feitos a horas. agora mandas em mim quanto quiseres: o que sobrou foram algumas peças de roupa esquecidas na cadeira do teu quarto. meu amor, esta fotografia é o que os meus olhos não conseguem fixar na viagem.
manifesto-me
por entre promessas de rumbas e chávenas de café cheias, as mãos ficam frias porque agora é inverno. olhas em tua volta e há imensas mesas vazias, cadeiras por ocupar, cinzeiros sem mácula. era assim quando te vestias de gala e ias às matinées dançantes do Salão. era isso e treze rapazes a fazerem sapateado no andar de baixo, junto ao balcão do bar.
agora sabes que é preciso procurar um novo país onde colher tempestades. podes-lhe chamar Áustria, Venezuela, Carnaval ou amizade, tanto faz para o interesse que tens em ver o teu coração explodir peito afora. pelas mesas vazias vais deixando cartões onde prometes amor e cortes de cabelo. sempre foste assim, despropositado. e as promessas já não voam como dantes.
estás mais crescido, és um homenzinho, já não tens medo de falar de amor com outros rapazes, de lhes passar a mão pela cara e de os beijares na boca. o teu corpo vai arrumado dentro de um casaco e ouves, mentalmente, uma música impossível de existir fora de ti. era isso tudo e uma garrafa de rum, a noite passada, o ano inteiro. nunca foi preciso comprar mais bilhetes.
agora sabes que é preciso procurar um novo país onde colher tempestades. podes-lhe chamar Áustria, Venezuela, Carnaval ou amizade, tanto faz para o interesse que tens em ver o teu coração explodir peito afora. pelas mesas vazias vais deixando cartões onde prometes amor e cortes de cabelo. sempre foste assim, despropositado. e as promessas já não voam como dantes.
estás mais crescido, és um homenzinho, já não tens medo de falar de amor com outros rapazes, de lhes passar a mão pela cara e de os beijares na boca. o teu corpo vai arrumado dentro de um casaco e ouves, mentalmente, uma música impossível de existir fora de ti. era isso tudo e uma garrafa de rum, a noite passada, o ano inteiro. nunca foi preciso comprar mais bilhetes.
manifesto
estamos aqui há tanto tempo que a chuva nos fez acreditar que os nossos pés descansam em piscinas de água aquecida. era uma vez uma história de gente sentada e um livro aberto em cima dos joelhos - quinze ou dezasseis pessoas, digo eu, chegam muito bem para se cantar uma vitória ou organizar um baile - dêem-nos uma casa ou um reduto, nós trataremos de abolir as fronteiras e fazer a festa.
estamos aqui há um certo tempo, pois não foi assim tanto, não, e o que fizemos foi transparecer, mais do que transpirar, as ideias que fomos mastigando nas páginas dos livros e nas faces dos discos. sentamos-nos no era uma vez e multiplicamos por não sei quantos números - eram luzes a cair da tua testa ou alguém que tinha beijado com batôn dourado - e no fim eu olhei para ela, disse-lhe boa tarde, e só aí percebi não a conhecer.
estamos aqui, é um facto, embora saibamos que estamos em curso para um outro lado qualquer. deram-nos uma caixa de chocolates e comemo-los pela seguinte ordem: primeio os de formas bonitas castanhas e brancas/ depois os de tom simplesmente castanhos/ finalmente os que vinham embrulhados em papel de prata. não nos dêem mais nada - vamos colocar o volume o mais alto possível, só para reconhecer o silêncio - não nos dêem a mão.
estamos aqui há um certo tempo, pois não foi assim tanto, não, e o que fizemos foi transparecer, mais do que transpirar, as ideias que fomos mastigando nas páginas dos livros e nas faces dos discos. sentamos-nos no era uma vez e multiplicamos por não sei quantos números - eram luzes a cair da tua testa ou alguém que tinha beijado com batôn dourado - e no fim eu olhei para ela, disse-lhe boa tarde, e só aí percebi não a conhecer.
estamos aqui, é um facto, embora saibamos que estamos em curso para um outro lado qualquer. deram-nos uma caixa de chocolates e comemo-los pela seguinte ordem: primeio os de formas bonitas castanhas e brancas/ depois os de tom simplesmente castanhos/ finalmente os que vinham embrulhados em papel de prata. não nos dêem mais nada - vamos colocar o volume o mais alto possível, só para reconhecer o silêncio - não nos dêem a mão.
terça-feira, dezembro 27, 2005
webcam
esse teu dedo sempre na tecla do rato sobre o link pesquisar, pesquisar, pesquisar, parece que o mundo te vai fugir debaixo dos pés e no momento seguinte a pessoa mais importante da tua vida pode desligar o computador e tu vais ficar aí, esse teu dedo sempre na tecla do rato sobre o link, mais nada, sempre a tecla, a tecla, pesquisar.
dantes eras tu sempre cansada. chegava a casa e estavas deitada no sofá, adormecida. eu tinha pena, aquecia qualquer coisa para o jantar e ficava a olhar para os carros da janela. tu acordavas, balbuciavas uma ou duas palavras, nunca nada de completo, nunca nada de concreto, a sopa já fria no balcão da cozinha, tu tomavas um banho e ias para a cama, eras tu sempre cansada.
esse teu dedo, esse teu dedo, os teus olhos fixos no écrã, o mundo adentro queres tu, sem reparares sequer que o mundo aqui fora, eu no sofá à tua espera, eu no corredor a limpar os olhos, boa noite, digo eu, tu baixas a cabeça, o teu dedo, o teu dedo, pesquisar, pesquisar, pesquisar, uma vez abri uma janela por engano, falavas de amor com não sei quem, esse teu dedo, esse teu dedo.
cansada, estou cansada. eu a deixar a pasta na mesa da sala, a deixá-la cair com força, à espera de te acordar, tu a passares as costas da mão pelo nariz, a recostares-te um pouco mais. não falamos há quanto tempo, agora? aqueço qualquer coisa para o jantar, a sopa, qualquer coisa que fica logo fria, eu a olhar pela janela, tu no sofá, se bem me lembro, esta semana disseste-me duas coisas, cansada, sim, cansada, e boa noite.
dantes eras tu sempre cansada. chegava a casa e estavas deitada no sofá, adormecida. eu tinha pena, aquecia qualquer coisa para o jantar e ficava a olhar para os carros da janela. tu acordavas, balbuciavas uma ou duas palavras, nunca nada de completo, nunca nada de concreto, a sopa já fria no balcão da cozinha, tu tomavas um banho e ias para a cama, eras tu sempre cansada.
esse teu dedo, esse teu dedo, os teus olhos fixos no écrã, o mundo adentro queres tu, sem reparares sequer que o mundo aqui fora, eu no sofá à tua espera, eu no corredor a limpar os olhos, boa noite, digo eu, tu baixas a cabeça, o teu dedo, o teu dedo, pesquisar, pesquisar, pesquisar, uma vez abri uma janela por engano, falavas de amor com não sei quem, esse teu dedo, esse teu dedo.
cansada, estou cansada. eu a deixar a pasta na mesa da sala, a deixá-la cair com força, à espera de te acordar, tu a passares as costas da mão pelo nariz, a recostares-te um pouco mais. não falamos há quanto tempo, agora? aqueço qualquer coisa para o jantar, a sopa, qualquer coisa que fica logo fria, eu a olhar pela janela, tu no sofá, se bem me lembro, esta semana disseste-me duas coisas, cansada, sim, cansada, e boa noite.
segunda-feira, dezembro 26, 2005
lã
queria dizer ainda mais qualquer coisa. olho em frente e o nevoeiro tapou o mar. era assim que começava a história. trazia uma camisola de lã, enorme, muito maior que o seu corpo, e tirava cigarros de dentro do bolso da camisa. tinha as mãos muito enrugadas, calejadas pela água salgada. eu agora não me vou queixar, só por causa do nevoeiro.
queria dizer ainda mais qualquer coisa. as antenas têm luzes no cimo, acendem e apagam num ritmo certo. ele olhava para a montanha onde havia uma casa. uma casa e um fumeiro, alguém dentro. ele tirava os cigarros do bolso da camisa e punha-se a contar uma outra história. assim, entre a minha história e a dele, fica a história que vos quero contar, aconchegada.
queria dizer ainda mais qualquer coisa. o nevoeiro, o mar, as montanhas, a falta de sentido de tudo isto. não sei nem nunca soube o nome dele. era um estranho, um estranho muito próximo, mas um estranho. lembro-me agora disso porque eu também tiro cigarros do bolso da camisa enquanto conto esta história. eu também sou assim. ou de onde eu viria se não fosse todo este mundo calado.
queria dizer ainda mais qualquer coisa. as antenas têm luzes no cimo, acendem e apagam num ritmo certo. ele olhava para a montanha onde havia uma casa. uma casa e um fumeiro, alguém dentro. ele tirava os cigarros do bolso da camisa e punha-se a contar uma outra história. assim, entre a minha história e a dele, fica a história que vos quero contar, aconchegada.
queria dizer ainda mais qualquer coisa. o nevoeiro, o mar, as montanhas, a falta de sentido de tudo isto. não sei nem nunca soube o nome dele. era um estranho, um estranho muito próximo, mas um estranho. lembro-me agora disso porque eu também tiro cigarros do bolso da camisa enquanto conto esta história. eu também sou assim. ou de onde eu viria se não fosse todo este mundo calado.
espaço em branco
tudo o que tinhas a dizer, disseste, eu bem o sei, naquele momento em que fui capaz de ouvir o mais profundo silêncio da terra a abrir debaixo dos meus pés. foi preciso que eu abrisse um espaço assim, para o meu medo, depois de tanto eu ter falado aos teus ouvidos. sorriste ou nem sei se sorriste - passaste-te para um outro lado da fronteira, da fronteira onde eu já não estou.
houve tempos em que poderíamos ter sido felizes, tempos em que as coisas eram todas de outro modo. eu podia andar descansado por entre as lojas, a levantar o chapéu a toda a gente, tempos em que as tuas mãos sujas de tinta-da-china descansavam, solenemente, sobre a mesa do teu ateliê. também isso passou, ambos o sabemos. e se o tempo não volta atrás, muito menos eu, meu antigo amor, posso.
tudo o que tinhas a dizer, disseste. não guardo sequer espaço para o ressentimento, visto o meu casaco de todos os dias e saio vergado debaixo do guarda-chuva. um ou outro dia uma jovem de rosto triste passa a mão pelas minhas barbas e eu sem reacção. depois de tanto silêncio, já não se consegue sobreviver ao bater do coração. e ficou muito, muito frio.
houve tempos em que poderíamos ter sido felizes, tempos em que as coisas eram todas de outro modo. eu podia andar descansado por entre as lojas, a levantar o chapéu a toda a gente, tempos em que as tuas mãos sujas de tinta-da-china descansavam, solenemente, sobre a mesa do teu ateliê. também isso passou, ambos o sabemos. e se o tempo não volta atrás, muito menos eu, meu antigo amor, posso.
tudo o que tinhas a dizer, disseste. não guardo sequer espaço para o ressentimento, visto o meu casaco de todos os dias e saio vergado debaixo do guarda-chuva. um ou outro dia uma jovem de rosto triste passa a mão pelas minhas barbas e eu sem reacção. depois de tanto silêncio, já não se consegue sobreviver ao bater do coração. e ficou muito, muito frio.
domingo, dezembro 25, 2005
natal 3
caminhava pela beira do passeio, o corpo a sentir de perto os carros, era a tarde do dia de natal e chovia, pelo menos na terra dele, pelo menos naquele momento, caminhava pela beira do passeio, talvez não visse mas sentia, de certeza, os carros que lhe passavam tão perto do braço, podia ter um destino mas não, não tinha, caminhava, isso bastava-lhe.
trazia na mão um livro, escrito há já alguns anos, sobre acontecimentos passados há ainda mais tempo, muito mais tempo aliás, sobre algumas pessoas, homens e mulheres, sobre vidas, escolhas, pequenas surpresas que aparecem, pequenas oportunidades que se perdem, caminhos que se fizeram desfazendo-se. sim, um livro de vida, porque nada lhe parecia bastar.
chovia, na terra dele, no passeio, naquele momento, os carros e o livro, tão perto, ele não dava por isso, caminhava, caminhava pela beira do passeio, era a tarde do dia de natal e quase ninguém na rua, só os carros, as janelas enfeitadas, o livro na mão, caminhava à beira do passeio, pensava, não se sabe em quê, pensava, certamente, caminhava, e isso bastava-lhe.
trazia na mão um livro, escrito há já alguns anos, sobre acontecimentos passados há ainda mais tempo, muito mais tempo aliás, sobre algumas pessoas, homens e mulheres, sobre vidas, escolhas, pequenas surpresas que aparecem, pequenas oportunidades que se perdem, caminhos que se fizeram desfazendo-se. sim, um livro de vida, porque nada lhe parecia bastar.
chovia, na terra dele, no passeio, naquele momento, os carros e o livro, tão perto, ele não dava por isso, caminhava, caminhava pela beira do passeio, era a tarde do dia de natal e quase ninguém na rua, só os carros, as janelas enfeitadas, o livro na mão, caminhava à beira do passeio, pensava, não se sabe em quê, pensava, certamente, caminhava, e isso bastava-lhe.
natalouqualquercoisa
três quartos de mim são outra vez aquilo que eu nunca fui. não está nada para começar agora, convenço-me. o corpo, sim, mas também a boca, os dedos, os vícios. três quartos e eu no corredor, onde não sei como dormir. mas outra, qualquer coisa.
eu e eu e eu. posso fazer uma lista das pessoas com quem sonhei esta semana. umas quantas conhecidas, outras reconhecíveis, outras inventadas. sim, tu, que estás aí desse lado (pensas que por não te ver ou ouvir não te sinto), eu ainda tenho que te inventar. porquê?
era para acabar bem, este texto, deixar uma mensagem de esperança a verde e vermelho como as bolas da árvore. era para falar de outra coisa, era para ir a outro lado, trazer alguma ideia. era para ser assim, de outra maneira. natalouqualquercoisa.
eu e eu e eu. posso fazer uma lista das pessoas com quem sonhei esta semana. umas quantas conhecidas, outras reconhecíveis, outras inventadas. sim, tu, que estás aí desse lado (pensas que por não te ver ou ouvir não te sinto), eu ainda tenho que te inventar. porquê?
era para acabar bem, este texto, deixar uma mensagem de esperança a verde e vermelho como as bolas da árvore. era para falar de outra coisa, era para ir a outro lado, trazer alguma ideia. era para ser assim, de outra maneira. natalouqualquercoisa.
cedo
acordou cedo para ir ver as prendas em cima do sofá da sala. abriu-as a noite passada, tiradas de perto da árvore de natal. acordou cedo, levou a boca seca pelo corredor. a luz do dia chuvoso entrava pelas janelas, e ao sair de cada porta inventava pequenos redutos pelo corredor. duas frases seguidas terminadas pela palavra corredor, quase três. ele era assim.
acordou cedo e ligou o leitor de cd's. está apaixonado por um álbum que não pára de ouvir. pensa em alguns amigos que não estão com ele e em noites em que havia vinho sobre a mesa. tenta estabalecer contacto com imensa gente que não conhece. repete interiormente alguns princípios de estética. ou então, é natal, é natal, é natal.
acordou cedo e olhou para o outro lado da cama. deixou uma almofada ao alto, a simular um corpo que dormisse com ele. até podia ser triste, mas acaba por lhe fazer crescer um sorriso nos lábios. coloca a almofada entre ele e o relógio digital na mesa de cabeceira. abraça a almofada para ver as horas. e percebeu que acordou cedo.
acordou cedo e ligou o leitor de cd's. está apaixonado por um álbum que não pára de ouvir. pensa em alguns amigos que não estão com ele e em noites em que havia vinho sobre a mesa. tenta estabalecer contacto com imensa gente que não conhece. repete interiormente alguns princípios de estética. ou então, é natal, é natal, é natal.
acordou cedo e olhou para o outro lado da cama. deixou uma almofada ao alto, a simular um corpo que dormisse com ele. até podia ser triste, mas acaba por lhe fazer crescer um sorriso nos lábios. coloca a almofada entre ele e o relógio digital na mesa de cabeceira. abraça a almofada para ver as horas. e percebeu que acordou cedo.
quinta-feira, dezembro 22, 2005
beijo
sempre sempre igual, dizia, as suas palavras coladas na parede, o meu formato como o teu, assim, deixar de vez os dedos por pendurar na parede, ao lado do lençol do banho e de uma fotografia de uma namorada antiga. sempre sempre igual, a mesma madeixa de cabelo guardada no envelope, a mesma maneira de dizer os nomes baixinho na cama.
e no entanto, aos olhos de quem não lê, uma distância enorme entre a cara fechada e o coração emparedado, os dedos trémulos sobre o balcão, uma bica pedida envergonhada, os dentes quietos perante o pão, queres dizer o quê quando dizes o que dizes, qual o sentido do teu estar calado quando não me dizes nada.
ou ainda a fazer perguntas quando só de absinto e perfumes se podem fazer sonhos assim, o corpo meio morto a andar pela cidade, o telefone que não toca, a mensagem que não chega, ou ainda essa maneira de dar as más notícias, a sorrir, sempre sempre igual, distante, porque ao longe vê-se tão mal o que se sente perto.
e no entanto, aos olhos de quem não lê, uma distância enorme entre a cara fechada e o coração emparedado, os dedos trémulos sobre o balcão, uma bica pedida envergonhada, os dentes quietos perante o pão, queres dizer o quê quando dizes o que dizes, qual o sentido do teu estar calado quando não me dizes nada.
ou ainda a fazer perguntas quando só de absinto e perfumes se podem fazer sonhos assim, o corpo meio morto a andar pela cidade, o telefone que não toca, a mensagem que não chega, ou ainda essa maneira de dar as más notícias, a sorrir, sempre sempre igual, distante, porque ao longe vê-se tão mal o que se sente perto.
quarta-feira, dezembro 21, 2005
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